Infelizmente ainda são poucas as escolas que consideram que preparar alguém para a vida ou para o mercado de trabalho é muito mais do que ensinar matemática, português ou geografia. Todo e qualquer conteúdo que aprendemos vem junto com uma forma de escutar e de dizer. E é dessa forma – você vai ver neste livro – que ainda aprendemos que escutar é obedecer e falar é mandar. Assim forma-se o conceito “quem sabe fala, quem não sabe escuta”. Como se escutar fosse próprio do lugar do subalterno. O resultado desse despreparo nós vemos todos os dias. Uma sociedade individualista, competitiva ao extremo e com enormes dificuldades de convívio harmônico. (Location 155)
O desejo genuíno de aprender como escutar os outros e de aprender isso com o outro é um ponto de partida ético fundamental para qualquer forma de vida que se considere comum, (Location 165)
A vida em ambientes onde pessoas não se escutam torna-se gradualmente insalubre, chata e um fermento permanente para a agressividade. (Location 171)
Em vez de entrar com cuidado na casa alheia, pedindo permissão e perguntando, nos colocamos de forma arrogante, impondo nosso mundo e nossos valores. Como agimos assim, autorizamos o outro a fazer isso também. (Location 174)
Esperamos que este livro ajude você a valorizar a importância da escuta como um tratamento social e psicológico dos conflitos, mas também como uma forma de tornar a experiência humana mais rica e interessante. (Location 185)
intervenção de escuta (Location 241)
O curso rolou e rolou mesmo. Sem muito preparo ou roteiro, mas ficou bom e o principal foi: brincando, a gente se entendeu. (Location 268)
aprendi que, quando a gente se escuta, surge uma espécie de confiança que faz da experiência de estar junto o centro de gravidade da história. A situação de vulnerabilidade ajuda muito a confiar no outro e torna a escuta mais aguda e decisiva. É assim também que o desejo de transmitir a escuta torna-se a tentativa de incluir mais gente na brincadeira. (Location 275)
3 Aprendendo a escutar
Se de médico e louco todo mundo tem um pouco, de psicanalista e palhaço todo mundo tem um pedaço. (Location 284)
Reconfirmamos a ideia inicial de que a parte do psicanalista no palhaço e a parte palhaço do psicanalista têm em comum praticar a escuta como uma espécie de brincadeira séria que transforma as pessoas. (Location 288)
La escucha como una especie de juego que transforma a las personas.
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Freud, pai da psicanálise, dizia que ela é a arte de transformar o sofrimento neurótico em miséria ordinária; e um bobo da corte, pai de todos os palhaços, poderia dizer que a arte do palhaço é transformar a miséria ordinária em preciosa experiência de vida. (Location 295)
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Certa vez, perguntei ao meu filho de 9 anos o que ele queria ser quando crescer e ele me disse que queria criar uma escola para ensinar as pessoas a contar piada e a encontrar graça na escola. De fato, na escola não se ensina como modular o humor, como criar alterações nos estados de espírito ou o que Freud chamava de técnica do chiste. (Location 301)
Lição 1: Ninguém se torna psicanalista ou palhaço seguindo regras piamente. (Location 320)
Escutar é uma arte que envolve risco. (Location 324)
Essa é uma lição mais importante do que parece porque, em geral, as pessoas já aprenderam certas coisas sobre como devem escutar e frequentemente isso funciona como uma espécie de camisa de força que não estimula nem coloca o problema básico e primeiro: como você, nos seus termos, com a sua história e do seu jeito, pode encontrar um modo de escutar os outros que lhe seja próprio e autêntico. É por essa regra e por esse motivo que a escuta começa pela escuta de si. (Location 340)
Importancia de la autenticidad en la forma de escuchar. Como ser tío de colonias, es algo que se crea y en lo cual es muy necesaria la escucha.
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Escutar-se é desconhecer-se, despir-se do conhecido e das inúmeras versões que fazemos e refazemos de nós mesmos, a que a psicanálise chama de narcisismo. (Location 348)
como entendemos a escuta. Como uma pequena viagem, na qual deixamos, hospitaleiramente, que a voz do outro ecoe em nós mesmos, para em seguida ler sentidos intrusivos e imprevistos, perguntando e investigando a fonte de nossos problemas e inquietudes, tal como se estivéssemos em um hospital. (Location 354)
4 A marginalidade dos palhaços
Neste exato instante em que você está lendo estas palavras, milhares de palhaços em todo o mundo estão em hospitais, campos de batalha, campos de refugiados, escutando pessoas, relacionando-se verdadeiramente com elas, buscando, por meio do afeto e do humor, amenizar a dor daqueles que estão passando por situações trágicas e delicadas. (Location 367)
inferimos por que a comédia é uma espécie de tratamento para a tragédia. Um tratamento que não nega nem destitui a existência do pior, mas que faz com ele uma espécie de inversão de sentido. (Location 369)
A segunda imagem sobre o palhaço o coloca no picadeiro. Falou circo, pensamos logo em palhaços. No entanto, eles são muito anteriores à existência desse tipo de espetáculo itinerante. Acreditamos que palhaços são anteriores à existência de qualquer espetáculo, enquanto forma organizada de arte. Palhaços têm uma espécie de função social, pois eles condensam e sintetizam a possibilidade dada pela linguagem e pela coabitação humana de imaginar e viver, a partir do mundo dado, um outro mundo possível. Com alguma facilidade, a gente consegue imaginar um grupo de ancestrais nossos, lá no tempo “das cavernas”, rindo de um membro do bando mais desajeitado numa caçada ou se atrapalhando ao tentar apanhar frutas. Esse momento foi quando descobrimos que podemos ser diferentes de nós mesmos. Nesse momento, inventou-se a ficção, o “como se”, o “era uma vez”. (Location 377)
Afinal, a verdade sobre nós mesmos é que inventamos mentiras. A verdade sobre nós mesmos é que nós nos enganamos, criamos ilusões, nos orientamos por fantasias e nos deixamos levar por enganos que são apenas respostas à força de nossos desejos. (Location 387)
Escutar é uma pesquisa sobre a verdade do que está sendo dito. Verdade entendida aqui como relação entre aquele que diz e o que ele diz. Verdade que tem uma estrutura de ficção, (Location 390)
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Quando rimos do palhaço, rimos de nós mesmos porque escutamos por meio dele a verdade sobre nós. (Location 395)
o palhaço não interpreta um personagem. Ele é. E ele é de uma forma que coloca em questão a relação entre o real e a verdade. (Location 398)
Os bobos da corte e os bufões da Idade Média eram gente torta e esquisita, em geral estrangeiros, que podiam dizer certas verdades aos reis, justamente porque estavam à margem da disputa social (Location 406)
em posição de exterioridade, (Location 410)
Disso emerge uma consideração sobre a prática da escuta. Ela exige que nos coloquemos ao mesmo tempo em uma posição muito distante e muito próxima do outro. (Location 415)
Se o palhaço nos devolve à perplexidade, revelando afinal quem nós somos e como somos, ele nos informa também que a arte de escutar é meio oposta à arte de entender. Seria mais justo descrevê-la como a arte metódica e cuidadosa de desentender os outros, de perguntar por que mesmo A leva a B e B leva a C, quando isso está claro e cristalino para quem fala, mas não se escuta. (Location 438)
El arte de escuchar es opuesto al arte de entender.
o palhaço tem que estar em uma posição marginal ou periférica com relação aos interesses, para poder escutar e fazer rir melhor. (Location 450)
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Enquanto todos estão representando seus personagens, lutando para se tornar protagonistas ou antagonistas da peça da vida, os bobos da corte apenas são o que são. Pessoas de verdade, gente cooptada das ruas para entreter as cortes e o clero. Suas piadas exploram o valor crítico da sua inadequação. Eles não estão ali apenas para fazer espetáculos para os outros dormirem ou esquecerem as coisas como elas são, mas para inventarem ou revelarem a verdade da situação que realmente está ali. (Location 456)