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a morte do seu pai vai acontecer só uma vez e é uma experiência crucial na sua vida. É crucial no viver humano perder a geração que nos precedeu, então você vai ficar triste, vai chorar… o luto pode durar de seis meses a um ano, sim, e isso não tem nada de patológico. Faz parte da vida. Como você não quer viver uma coisa tão importante e significativa? Você tem uma vida só e nela você só tem uma morte de seu pai. A qualidade da sua experiência não é definida quando você pode ficar sorrindo do começo ao fim não; todas as experiências são “interessantes”.

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Uma vida em que você se autoriza a viver intensamente. Autoriza-se a viver com toda a intensidade que todos os momentos da nossa vida merecem.

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O que nos impede de aproveitar a vida (o que impede o prazer) é se distrair da vida e se desapegar dela.

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Então, quando o indivíduo se torna realmente um valor maior do que a comunidade, é claro que a morte passa a ser uma experiência solitária e, sem dúvida alguma, aterradora e desesperadora. Por isso o indivíduo moderno – e moderno vale para os últimos duzentos anos – tem uma relação conturbada e atormentada com a transcendência, porque o caráter efêmero da vida é uma coisa que encaramos sozinhos.

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se tem uma coisa que todos os psicoterapeutas têm em comum, é que a especialidade do psicoterapeuta é buscar entender como valorizar a vida concreta sem precisar de uma transcendência. Ou seja, sem recorrer a valores externos à vida concreta do paciente. Sem esse princípio, você não tem psicoterapia; você tem uma forma ou outra de boçalidade. Boçal é o cara que quer que o outro goze do jeito que ele pensa que é certo. Todas as psicoterapias só têm esta ambição: buscar entender como, na vida concreta do paciente, é possível descobrir alguma coisa que a valorize; não fora da vida concreta do paciente, mas nela mesma. É por isso que a terapia acaba sendo um trabalho quase estético, um trabalho de recriação narrativa de uma vida, que dá atenção a uma vida de tal forma que ela se valoriza.

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Deveríamos todos percorrer com alegria, na nossa cultura e no nosso pensamento, caminhos que não precisam ir a lugar nenhum, que apenas nos dão acesso a alguns buracos na floresta.

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O hedonismo é um projeto de dedicação e atenção ao mundo, exatamente como o projeto de contemplar e apreciar uma obra de arte é um projeto de dedicação e de atenção à obra.

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O hedonismo, assim como qualquer apreciação estética, exige uma extrema atenção ao mundo, e ninguém é hedonista com o celular na mão. Alguém perguntará: não pode haver uma apreciação hedonista do celular, que por isso mesmo estaria sempre na palma da mão? É uma possibilidade, claro. Outra possibilidade é que o celular seja um equivalente geral de nossa dificuldade em prestar atenção ao mundo, ou seja, de nossa constante distração.

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O problema do prazer estético é sempre, antes de mais nada, um problema de atenção, e um mundo de prazeres é uma promessa que se realiza só para quem sabe prestar atenção.

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Presumo que nossa amiga tenha, assim, perdido a ocasião de viver um luto importante. Na hora de chorar uma perda, ela se distraiu.

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Fruir da vida só é possível para quem não se distrai; para quem, ao contrário, mantém um esforço constante de atenção à vida.

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Muitos suicidas, se não todos, morrem não de tédio, mas de tanto se distrair da vida. Pois de que adianta viver uma vida na desatenção? Por que valeria a pena viver uma vida que sequer parece exigir nossa atenção?

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Quem pratica psicoterapia sabe que na maioria das pessoas não é assim: a gente se proíbe quase tudo o que não é explicitamente permitido.

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Em geral, e aqui está a razão da antipatia do cristianismo pela modernidade, que acontece a partir desses séculos (16, 17 e 18) e na sua aceleração final, é a valorização da imanência, ou seja, o que faz com que a vida valha eventualmente a pena não está mais fora da vida concreta da gente; não é mais separado da vida, mas está nela.

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Como, então, julgar se uma vida é/foi boa ou não? É exatamente nessa altura que a brecha moderna inventa o juízo estético. Ao longo do século 18, é produzida uma quantidade absurda de tratados de educação do gosto, educação da experiência estética. Montesquieu, Voltaire e Kant são apenas os primeiros que me vêm à cabeça; é realmente um mundo inteiro de pessoas pensando e refletindo sobre como é que nasce o juízo estético, até chegar à formulação kantiana, a mais perfeita forma de pensamento ocidental sobre o julgamento estético: no fundo, quando julgamos uma obra de arte, o que julgamos é uma finalidade sem fim, ou seja, uma coisa que não tem outra finalidade fora dela mesma. O que é uma excelente definição de obra de arte, mas que talvez se aplique também às nossas vidas, as quais, quem sabe, não tenham outra finalidade fora delas mesmas.

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Nós tentamos resolver nos outros as dificuldades que temos com a nossa liberdade. Quanto mais temos liberdade, mais nos transformamos em algozes dos outros, porque nos outros tentamos reprimir a liberdade que não toleramos em nós mesmos.

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Eu uso e tento promover “boçal” como um conceito. Boçal é aquele que responde ao medo de sua liberdade reprimindo no outro essa liberdade que o apavora. Então, boçal é aquele que reprime quem goza diferente dele, porque ele mesmo não se aguenta.

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os antiboçais são numerosos e variados, mas eu gosto pelo menos de lembrar que entre os antiboçais têm um lugar de destaque os psicoterapeutas, porque eles realmente trabalham com a ideia de que, orientando alguém, não existem valores aos quais recorrer senão os que estão já lá, na mente de seus pacientes. Eles são os representantes da valorização da vida concreta de quem os interpela. De fato, tem só uma coisa que um psicoterapeuta não pode ser: ele não pode ser boçal. Ele não pode querer orientar o outro, porque, se ele quiser orientar o outro, vai ser sempre a partir do medo do que ele (o psicoterapeuta) teria de sua própria liberdade.

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