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Lacan, por sinal, pouco se importava com a inteligibilidade imediata. Fazia valer o Nachträglich, conceito freudiano traduzido em francês por après coup e em português por só depois. O Nachträglich significa que certos fatos só podem ser entendidos depois da sua ocorrência — e estava na base da prática de Lacan, tanto no seminário quanto na clínica.

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O Nachträglich também estava na base da clínica do Doutor. Cortava a sessão sem explicação alguma, confiando no analisando, na sua possibilidade de descobrir sozinho a razão do corte. Incitava o outro a se analisar. Vai e volta para me dizer o que você descobriu. Vai e decifra o enigma da tua própria história. Isso explica a substituição da palavra paciente por analisando. A posição do paciente é a de quem espera. Já a do analisando é a de quem está fazendo análise, como o gerúndio indica.

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Lacan sustentava a transferência com o corte, um recurso eficaz porque transfere para o analisando o poder de analisar. Noutras palavras, autoriza a saber de si. O corte evita a resistência à análise, que a interpretação do significado do discurso do analisando pode provocar.

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Não era o tempo cronológico, o tempo linear de Cronos, que o guiava e sim o tempo de Kairós, o do momento fugaz em que uma oportunidade se apresenta e deve ser aproveitada, para que o sucesso seja alcançado.

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Na trilha de Kairós, Lacan subverteu a psicanálise a fim de que ela tivesse a virulência dos primórdios. Não era a pontualidade do analista mas a sua prontidão que contava. Noutras palavras, não era suficiente ter feito a formação e ser reconhecido pelos pares. A cada sessão, o analista era obrigado a dar a prova da sua competência.

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Muito do que é dito só é possível porque o analista se compromete a não revelar nada. Me lembro ainda da sessão em que, para me tirar do silêncio, Lacan me assegurou: — Nada do que você disser sairá daqui

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Não foi por acaso que ele insistiu na importância do desejo do analista para a eficácia da cura. Além de ter introduzido a ideia da resistência do analista quando só se falava da resistência do paciente, a quem era atribuída toda e qualquer dificuldade no processo.

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Só bem depois eu entendi o procedimento de Lacan, na primeira etapa da análise. O Doutor valorizou o pedido explícito — o de me indicar um analista que pudesse ir ao Bra- sil —, para que o meu desejo inconsciente aflorasse. Tratou o pedido como se fosse o conteúdo manifesto de um sonho, cujo significado precisa ser descoberto e requer as associações de quem sonhou. Decerto, ele só fez isso por ter desejado que eu me tornasse sua analisanda. Expressou o desejo através do Por que você não veio logo, do Volte amanhã e do Sobretudo não deixe de me escrever. Deu a entender claramente que o meu engajamento na análise com ele era importante, e, por ter procedido assim, a ideia de atravessar mais uma vez o oceano para trabalhar com ele se concretizou.

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O relógio ali era tão secundário quanto o tamanho de um poema para a poesia.

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Como os poetas, Lacan se valia do tesouro da língua para fazer muito com pouco.

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Fiquei pendurada na linha até me dar conta de que o essencial havia sido dito. Desligando abruptamente, ele me fez escutar o meu desejo. Mas é obvio que só procedeu dessa forma por já ter intuído que, no meu caso, a batida do telefone não provocaria a ruptura. Graças à sua experiência clínica, transformou a batida num recurso analítico eficaz.

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O Doutor não estava ali para responder à demanda de amor e sim para que eu entrasse o quanto antes em análise. Não estava para o que nós chamamos de conversa mole e ele chamava de palavra vazia. O espaço do consultório existia para a palavra plena aflorar, uma palavra significativa para o analisando, cuja história era tratada pelo Doutor como uma epopeia.

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A palavra tanto podia ser a lira do Doutor como o seu chicote. Cada analisando encontrava nele o analista que merecia.

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Assim que nós sentamos, eu ouvi o Diga, que se repetiria durante anos, porque o analisando estava ali para fazer um trabalho que dependia da sua fala. Não era o sujeito do pensamento que interessava e sim o sujeito do inconsciente, que só podia se revelar através do discurso. Não era o Penso, logo existo de Descartes que contava e sim o Digo, logo existo.

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Lacan, cujo lema era Primo non rompere — Sobretudo não romper —, levou a sério o Tomo ainda hoje o avião. Ele sabia que era a condição absoluta do meu desejo e, se essa condição não fosse satisfeita, eu não faria análise.

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Se eu não tivesse ido à França e trabalhado com Lacan, que se interessava por tudo, nunca teria saído do consultório para escutar os carnavalescos. Comecei a fazer isso em 1979 por causa da declaração de Joãozinho Trinta na grande imprensa: “O povo gosta de luxo; quem gosta de miséria é intelectual”.

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Ouvi-o dizer empolgado que só reclamava da presença dos carros alegóricos na avenida quem morava em palacetes ou grandes edifícios, mas o povo, vivendo em casebre, em rua de lama, no aperto, queria coisas grandes, uma outra dimensão que só é encontrada no desfile, cujo luxo não é o do dinheiro e sim o das joias, que, sendo falsas, são pelas implicações mágicas as mais verdadeiras. “Vestida de nobre, uma empregada doméstica faz parte da nobreza, é a dama que queria ser, suas joias são as mais autênticas, porque são as da imaginação.”

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Graças aos carnavalescos descobri que o Carnaval não é só o dia do esquecimento, mas a festa através da qual o Brasil rememora a sua história e se reinventa todo ano. Apropria-se das representações do Oriente e do Ocidente antropofagicamente, devorando-as. Não imita, brinca livremente com as representações para criar outras sempre novas e surpreendentes. Cultua o transitório e o riso, espraiando a alegria a fim de exaltar a vida.

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Diga… estou escutando

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Também por isso eu me encontrava em Paris, realizando o desejo dos ancestrais. Daí a palavra compelida, à qual o Doutor deu ênfase exclamando Sim, é isso!.

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Uma sessão que ilustra o motivo da substituição do Penso, logo existo por Digo, logo existo. Se Lacan tivesse me perguntado por que eu não estava mais certa de nada, teria me induzido a pensar. Mas ele interagiu comigo dizendo Verdade? e Diga, estou escutando. Ou seja, precipitando a fala por saber que só através da livre associação, e não dos pensamentos, o inconsciente se manifesta. Com a palavra compelida, eu fui introduzida na história familiar e descobri o motivo inconsciente da travessia.

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Lacan não estava ali para responder à demanda de amor incondicional, mas para fazer o analisando assumir o seu desejo e ir em frente com ele, dando um sentido novo à sua vida.

Interesante el eje claro por promover subjetivacion a traves de la autorizacion del deseo y el deseo de analisis manifestado por el analista. Ese es el unico deseo que promueve en especifio, todos los otros en genérico.

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O trabalho de Lacan era um contínuo retorno a Freud, que, ao propor a associação livre, incitou o paciente a errar, dizer livremente o que lhe ocorresse. Só assim o inconsciente podia se manifestar.

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Da primeira aula do seminário, eu retive uma frase que me ajudou a continuar nos estudos de então: “Não se deve compreender rápido demais”. Isso porque, à diferença dos outros saberes, que em nome da objetividade excluem o sujeito, o saber do inconsciente não existe sem sujeito e este precisa ser decifrado.

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O Doutor me desafiou e era disso que eu precisava para sair da posição de humilhada e ofendida e recuperar a autoestima. Lacan sabia avaliar o grau de transferência — que, no meu caso, era o grau máximo — e agir em função dessa avaliação. A sessão mostra bem o quanto a sensibilidade do analista conta e por que Lacan dizia que a psicanálise é uma arte.

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Contrariando as expectativas, podia dizer ao analisando, num momento de crise, Não conte comigo, incitando-o a contar consigo mesmo e tratando a depressão com um desafio.

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Naquele dia eu saí do consultório repetindo as frases do Doutor… O divã é seu… tomou magistralmente. O que significava ter passado do face a face para o divã? Já não me sentaria e não veria o Doutor, ficaria sempre deitada, olhando o teto do consultório e só podendo existir através das palavras. Quanto a ele, só estaria presente a fim de escutar o que eu dissesse. Uma relação entre dois seres, inteiramente centrada na fala e na escuta. Ou melhor, numa fala que Lacan tratava como um texto e numa escuta de quem lia o que era dito. Daí inclusive a substituição da palavra interpretação por pontuação.

Enfatizar para que sea la persona quien hace el análisis e interpretación.

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A sessão do rato alucinado mostra mais uma vez o porquê da duração variável da sessão. A duração dependia do corte, que Lacan fazia no momento oportuno. Novamente: não era Cronos e sim Kairós que o determinava.

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Depois de um silêncio prolongado, eu disse que não me entendia e o Doutor deu a sessão por encerrada. Para ele, o essencial não era eu me entender, mas ter falado para depois encontrar o sentido. Acreditava piamente no efeito das palavras e na interpretação do analisando.

Nuevamente, en contraste a uno hacer la interpretación.

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Lacan foi um divisor de águas, porque não se autorizava a atribuir este ou aquele significado à fala do analisando. Ao proceder assim, o analista pode provocar a resistência e transformar a análise numa luta de prestígio. Por isso Lacan diz que, além da resistência do analisando, existe a resistência do analista, que se expressa quando o seu procedimento dificulta o processo analítico.

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fim, que só acontece quando a transferência acaba ou quando o analista deixa de ser o chamado sujeito suposto saber. Isso, no meu caso, dada a idealização dos franceses pelos libaneses e pelos brasileiros, implicava a apropriação do texto francês em português. Não seria a conquista da América, mas a de uma pátria nova, a pátria da escrita, onde eu piso em terra firme.

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Para coincidir comigo, Lacan foi capaz de dizer o que um pai de santo teria dito, ele era um ator que fingia não representar e entrava em qualquer papel que se impunha. Comigo ele se transformou num brasileiro para sustentar a transferência. Decerto fez o mesmo com outros analisandos de outras nacionalidades. Queria que todos tivessem a nacionalidade da análise. No número 5 da Rue de Lille, o dogmatismo não tinha vez porque a prática de Lacan era orientada por uma douta ignorância, como ele preconizava.

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A gente pode se esquecer da infância, mas ela não se esquece da gente.

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Mais de uma vez eu havia faltado à sessão marcada sem pagar por ela. Com isso, eu não honrava a palavra dada. Por quê? Acaso queria me certificar de que o Doutor havia sentido a minha falta? Talvez.

Interesante lectura inconsciente del hecho. No hay metalenguaje.

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O desejo era contrário à minha fantasia de ser um homem como se esperava que eu fosse. Noutras palavras, ele subvertia o imaginário, me empurrando para uma posição nova. Isso obviamente só aconteceu graças a uma manifestação do inconsciente no curso da análise. A ideia da subversão do desejo, tão cara a Lacan, então fez sentido.

Hacer que el deseo marginado se haga propio. Se asuma.

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Mas como não somos só o que imaginamos e a análise existe para que possamos nos reinventar, a sessão em que eu falei da fantasia permitiu que eu tivesse uma consciência nova.

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Por ter escutado o que eu havia dito, o Não posso falar, o Doutor me mandou ao banco. Como eu não me autorizava a falar sem pagar, ele fez o necessário para que eu pudesse me autorizar. Isso também implicava deixar de negligenciar o dinheiro e viver sob as ordens da mãe.

No solo decir, sino que actuar para promover la aparición de la palabra plena.

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O fato é que ele não dava ponto sem nó. A questão do dinheiro era central na história de uma família que emigrou sem nada do Oriente Médio para o Brasil e cuja vida começou com a luta insana para conquistar um lugar ao sol, com a mascatagem.

Estar atento a los puntos cargados de la historia.

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Não foi por acaso que, já no primeiro encontro, Lacan quis saber das minhas origens. A cura analítica era para ele equivalente a uma epopeia e o analisando, a um herói. De cada sessão, graças à sua escuta, ele fazia um evento extraordinário. Com a expressão epopeia subjetiva, deu à cura analítica uma dimensão que ela antes não tinha. Trata-se de um procedimento análogo ao de Freud que, em 1897, comparou os neuróticos a Édipo e Hamlet, fazendo daqueles heróis de tragédia, quando, na época, eles eram tratados só com remédios ou confinados em sanatórios submetidos a tratamentos violentos. Com o recurso à tragédia, Freud humanizou os neuróticos. A concepção da cura como epopeia é mais um exemplo do retorno de Lacan a Freud.

Interesantemente cercanl a Jung también.

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Quando a porta está fechada, o inconsciente sai pela janela.

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— Não sei… uma injeção de sífilis na veia… queria ficar louca para escapar da mãe, do natimorto, da impossibilidade de dar à luz… não suporto mais isso — eu então disse, chorando e repetindo que ia ficar louca. Lacan concluiu taxativamente. — Ninguém fica louco porque quer O desejo de escapar pela loucura não significava que isso ia acontecer e eu parei de chorar. Lacan tinha o dom de dizer o que era preciso para que o analisando suportasse as manifestações chocantes do seu inconsciente e pudesse continuar a análise. Sabia o quão difícil o processo é e, sem fazer nenhuma concessão, procurava facilitar o caminho.

La palabra justa para facilitar el enfrentamiento con la verdad inconsciente.

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— Você veio até aqui e não subiu. Volte amanhã a esta mesma hora Podia não voltar? Lacan se opôs à minha resistência insistindo no seu desejo de que eu fizesse análise. O episódio mostra bem por que ele introduziu na teoria a ideia da resistência do analista, que se manifesta quando este deixa o analisando sabotar o trabalho.

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Bouteille é garrafa, e o significado da expressão é “a senhora tem cancha”. Com o trocadilho, ele me deu o aval de que eu precisava para recomeçar a vida no Brasil. De surpresa em surpresa, a travessia foi feita. Mais de quatro décadas já se passaram e o sentimento é de que tudo aconteceu ontem, porque a modernidade estava no número 5 da Rue de Lille. Ali a resistência ao desejo podia ser vencida e a vida, reinventada. Lacan não aceitava que o tempo fosse desperdiçado, mas acolhia sempre quem estivesse disposto a se analisar e a renunciar ao gozo da ignorância. Valeu ter atravessado o oceano “como se fosse descobrir a América” para encontrar o meu caminho. Sou dos que tiveram o privilégio de acreditar no Doutor.

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